domingo, fevereiro 27, 2005

"Danny the Dog" (2004) - Massive Attack



O cão precisa de amigos

A estreia dos Massive Attack pelo cinema não correu da melhor maneira. A primeira banda-sonora da banda parece ter sido feita à pressa, sem grande força inspiradora por parte dos seus criadores. Ao ouvirmos as 21 músicas que compõem este álbum, ficamos com a sensação de ser mais da mesma matéria explorada no antecessor “100th Window”. Não que lhes falte genialidade, pois os Massive Attack são, felizmente, uma banda cheia de boas ideias: mas faltam ingredientes para fazer deste disco uma excelente obra.
Não só o álbum peca ao abusar do número de músicas (são 21 no total), como também peca ao usar a mesma sonoridade vaga e abstracta em todos os temas. Nenhuma das músicas é cantada, o que por si só não é motivo para não atingir a excelência dos álbuns anteriores. De facto, é mesmo a falta de originalidade e a semelhança entre as músicas que acabam por tornar “Danny the Dog” um álbum um pouco aborrecido e muito aquém das expectativas. Louis Leterrier, o realizador do filme com o mesmo nome do álbum, procurou fazer um filme onde conciliasse artes marciais, suspense e acção. Pelos vistos o filme foi um fracasso, não tendo ainda conseguido data de estreia (estava previsto para 2004).
A banda-sonora do filme, apesar de estar longe de ser uma obra-prima, consegue captar alguns bons momentos e tem músicas mesmo boas. A destacar: Atta Boy, Simple Rules, Polaroid Girl, Collar Stays On, You’ve never had a dream, I Am at Home e Danny the Dog. Esta última música que referi é sem dúvida a melhor do álbum, bastante poderosa e assombrosa.
É sempre complicado analisar uma banda-sonora sem termos visto o filme uma vez que as músicas ganham um novo significado e grandeza quando aliadas a imagens.
Esperemos então pelo filme e talvez este álbum ganhe um novo e melhor significado.

5/10

sábado, fevereiro 26, 2005

"Sideways" (2005), Alexander Payne



A bottle of wine is like life itself - it grows up, evolves and gains complexity. Then it tastes so fucking good.

As metáforas podem assumir várias formas. Em “Sideways” elas surgem sobre a forma de vinhos e todos os processos que estão envolvidos ao longo do seu fabrico. No vinho vemos todo um crescimento que acaba por envolver quase a complexidade de uma vida. Porque nos vinhos estão subjacentes todas as pessoas que cultivaram as vinhas, que apanharam as uvas, que as transformaram na bebida... Há portanto toda uma vida(s) por detrás de cada garrafa de vinho.

“Sideways”, o mais recente filme de Alexander Payne (o mesmo realizador de “About Schmidt”), leva-nos na viagem de dois homens pela Califórnia, pela rota dos vinhos. Dois amigos, Mylan (Paul Giamatti) e Jack (Thomas Haden Church) vão à procura de divertimento, bons vinhos, mulheres e golfe. É a última semana de solteiro de Jack e este quer aproveitar ao máximo os seus últimos dias de “liberdade”.
A viagem fica marcada pelo envolvimento com duas mulheres, Maya (Virginia Madsen) e Stephanie (Sandra Oh).
Esta viagem serve para estes dois homens ponderarem sobre a sua vida, sobre as direcções a seguir.

Paul Giamatti interpreta genialmente Miles, o eterno pessimista, depressivo e desiludido com a vida.
Thomas Haden Church assume o papel do bonacheirão, bon-vivant, fazendo lembrar Mick Jagger (tanto fisicamente como na maneira como se comporta).
A harmonia e cumplicidade entre estas duas personagens masculinas é espectacular, talvez um dos factores que faz com que este filme tenha um resultado tão positivo.

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quinta-feira, fevereiro 24, 2005

"P.S" (2005), Dylan Kidd



A importância de ser F.Scott

“P.S” é um daqueles filmes que se esquecem rapidamente, que nos passam completamente ao lado. Antes do próprio filme acabar, já nos esquecemos dele de tão evanescente que é a sua história.

Louise (Laura Linney) é uma mulher divorciada de 39 anos que trabalha na Universidade de Columbia. Um dia é surpreendida com um aluno que é exactamente igual a um seu ex-namorado dos tempos de adolescente, já falecido. Este jovem não é só parecido fisicamente com F.Scott (o tal ex-namorado morto) como também é igual na maneira como desenha e como fala. O mais previsível acontece e Louise volta a apaixonar-se pelo jovem.

O que poderia ter sido uma história interessante se fosse desenvolvida com um determinado cuidado, torna-se num filme entediante, aborrecido e sem qualquer conteúdo.
Vemos a relação desta mulher com o jovem sem entusiasmo nenhum, sem aquela chama que uma paixão requer, ainda para mais uma paixão antiga.

O argumento, tal como a realização, deixam muito a desejar. A tensão emocional do filme é alcançada em algumas cenas, mas é pouco motivadora.
Laura Linney está fantástica no filme mas não o consegue salvar da mediocridade. Topher Grace (o actor que desempenha o papel de F.Scott) é um jovem actor sem chama, bastante apático que nunca consegue assumir uma boa interpretação.

E assim temos o primeiro grande “barrete” de 2005.

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segunda-feira, fevereiro 21, 2005

"Vera Drake" (2005), Mike Leigh



Wife. Mother. Criminal.

O aborto nunca foi um tema fácil de tratar por todas as implicâncias sociais e pessoais que do seu acto advêm. Esta questão continua a dividir opiniões por todo o mundo, nomeadamente em Portugal onde a sua prática ainda continua a ser ilegal.

Vera Drake (Imelda Staunton ) é uma mãe de família como tantas outras, com dois filhos e um casamento feliz, que trabalha como empregada doméstica. Esposa e mãe ideal, Vera dedica-se no entanto a fazer abortos clandestinamente a jovens que lhe pedem ajuda. Às escondidas da própria família, esta mulher dócil e dedicada pratica aquilo que na sua época e no seu país (anos 50 em Inglaterra) ainda é considerado como crime.

Mas o que leva esta mulher, uma autêntica fada-do-lar, a cometer estes “crimes”? Para Vera, é uma missão ajudar aqueles que precisam de apoio. Ao fazer os abortos, esta mulher só vê que está a ajudar pobres raparigas e não que está a ir contra uma lei do seu país. Por isso o seu choque é ainda maior quando vê entrarem em sua casa agentes policiais. Vera não tem consciência dos seus crimes pois julga que está simplesmente a tentar melhorar a vida das mulheres (Vera nem sequer cobra dinheiro pelos abortos, apesar de levar uma vida não muito folgada).

O altruísmo desta mulher é estrondoso, não sendo ela capaz de dizer “não” a alguém que vem à procura do seu auxílio. O olhar e a simplicidade comovente desta mulher são incompatíveis com a atitude de uma criminosa. E é aqui que entra a grande talento da actriz Imelda Staunton, numa representação de ir às lágrimas (no bom sentido). A paixão, fulgor, carisma, pureza e até ingenuidade da personagem são transportas para o ecrã pela placidez e enorme talento de Imelda Staunton.

A câmara de Mike Leigh penetra no fundo desta alma, transpondo para o ecrã um rosto sereno, humilde, comovente e maternal. É impossível não simpatizarmos com Vera quer sejamos contra ou a favor do seu trabalho part-time como abortadeira.
“Vera Drake” é um filme austero e bastante realista, não se preocupando muito com recursos visuais ricos. Apenas nos mostra o lado cru e frio da vida quotidiana daquela mulher numa Londres na pós-Segunda Guerra Mundial.

Este filme não pretende impor nenhuma ideia política perante o tema do aborto, pretende sim, de alguma maneira, consciencializar para este problema que ainda continua a afectar muitos países na nossa sociedade, dita moderna.
Ainda hoje se continuam a perseguir mulheres criminalmente pela prática de abortos.
É aconselhável a todas as consciências verem este filme.

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sábado, fevereiro 19, 2005

"Kinsey" (2005), Bill Condon



Love is the answer, isn't it? But, sex raises a lot of very interesting questions...

Vamos falar de sexo...é a isto que o novo filme de Bill Condon se propõe.
Sexo, o assunto que continua a ser tabu em muitas sociedades e que se banalizou em outras. Sexo, esse problema que levanta inúmeras questões.

Alfred Kinsey (Liam Neeson) nasceu no seio de uma família bastante puritana e conservadora. Anos mais tarde decide sair do ninho caseiro para estudar biologia. Torna-se professor universitário na Universidade de Indiana e é lá que conhece a sua futura esposa, Clara McMillen (Laura Linney).
Na noite de núpcias surgem problemas a nível sexual e por isso o casal resolve procurar especialistas no assunto. É a partir daí que se começa a despertar em Kinsey um especial interesse por esta matéria. É ao perceber que no seu tempo não existiam ainda estudos nem especialistas em termos sexuais, que Kinsey determina mudar isso. Propõe a si mesmo (e à sua equipa que cria para o efeito) fazer investigações e inquéritos de incidência puramente sexual por toda a América do Norte.

Claro que a sociedade americana dos anos 50 não estava preparada para tamanho choque. Os estudos de Kinsey foram como uma bomba para uma população ainda maioritariamente conservadora.
Kinsey pretendeu falar de sexo abertamente, sem tabus e sem preconceitos. Os seus estudos foram dos maiores alguma vez feitos retratando esta temática e tornaram-se a base para futuros estudos sexuais, feitos por Freud por exemplo.

O que mais brilha neste filme são as interpretações notáveis de Liam Neeson, numa prestação incisiva e frontal, e de Laura Linney, ao dar corpo e alma ao eterno e único amor de Kinsey.

Falar de sexo ainda hoje não é uma tarefa fácil. Imaginemos então como foi para este homem falar destas questões no final da década de 40 e início da década de 50.
Este filme levanta problemas ainda hoje importantes como se existe ou não uma separação total entre sexo e amor, se no sexo vale tudo, até que ponto devemos levar o sexo e, por último, no meio disto tudo aonde se encaixam os sentimentos.
Porque, apesar de tudo, o que falhou em Kinsey foi ter deixado de lado a parte mais sentimental das relações humanas.

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sexta-feira, fevereiro 18, 2005

"Million Dollar Baby"(2005), Clint Eastwood



Anybody can lose one fight, anybody can lose once, you'll come back from this you'll be champion of the world.

Não é todos os dias que se vê um filme com uma carga dramática tão forte e arrebatadora.
Em “Million Dollar Baby” somos confrontados com o lutar de um sonho que acaba por se desmoronar, dando lugar ao vazio e à dor mas também à sensação de que se conseguiu alcançar algo.

Uma rapariga de 31 anos, Maggie (Hillary Swank) vai à procura do conceituado treinador de boxe Frankie (Clint Eastwood) para que este a torne numa grande pugilista. Depois de inúmeras recusas por parte de Frankie que não queria treinar qualquer rapariga que fosse pois isso iria contra as suas convicções, Maggie acaba por convence-lo depois de lhe mostrar os seus dotes na luta e a sua força de vontade.

Frankie transforma Maggie numa campeã, conseguindo que ela vença inúmeros combates pelo mundo fora. É na sua protegida que ele vê a imagem da sua própria filha com quem cortou relações há muito tempo. É em Maggie que ele encontra o porto de abrigo para se redimir do passado algo tenebroso que nunca chega a ser desvendado no filme. Frankie reencontra nesta rapariga uma nova razão de viver ao ajudá-la a alcançar o tão desejado lugar de pugilista de sucesso. A força de vencer de Maggie comove este homem que já não acreditava que nada tivesse salvação possível.

Clint Eastwood realiza um drama absolutamente avassalador, humano, forte e tocante. As últimas imagens do filme são de uma carga trágica deveras comovente às quais o espectador não consegue assistir sem ficar perturbado.

Hillary Swank volta a superar as expectativas ao ter este assombroso e sensível desempenho. A sua genuinidade, franqueza de olhar e comovente interpretação mereceram-lhe uma nomeação para o Óscar de melhor actriz, nomeação que pode muito bem vir tornar-se na sua segunda vitória deste prémio.
Morgan Freeman, o narrador da história, tem um papel importantíssimo neste drama uma vez que é uma espécie de sombra do próprio Frankie, o único que conhece seu passado.

Todo o filme emana uma negra e acutilante atmosfera, onde nem sempre os sonhos se transformam naquilo que idealizámos mas sim numa negra névoa que nos assalta.
Mas lá no fundo fica sempre aquela sensação que ao menos chegámos lá, que alcançámos o nosso objectivo máximo.
Maggie conseguiu-o.

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quarta-feira, fevereiro 16, 2005

Melhores Discos 2004

Apesar de já ser um bocado tarde para fazer listas dos melhores de 2004, mais vale tarde que nunca. Aqui ficam os 6 melhores álbuns de 2004 (opinião pessoal claro):

1º- Talkie Walkie- Air: Depois de um álbum obscuro como o antecessor “10.000Hz Legend”, o duo francês compôs um álbum límpido, claro e cristalino. As suas belíssimas canções embalam o ouvinte por lugares mágicos e encantadores. “Talkie Walkie” foi uma mudança de direcção para os Air, um reencontro com as sonoridades deixadas já no longínquo “Moon Safari” de 1998.
Uma obra-prima de escuta incansável e bem ao género da sonoridade suave e misteriosa que paira por todas as obras dos Air.
Destaques: Venus; Cherry Blossom Girl; Another Day; Alone in Kyoto.



2º-Franz Ferdinand- Franz Ferdinand – Este álbum de estreia da banda escocesa foi considerado por várias revistas de música como o grande álbum de 2004. E com razão. São 11 músicas de puro delírio pop/rock, com guitarradas ao estilo de White Stripes e vozes à Beatles. Um primeiro disco que mais parece um best-of de uma banda já com uma vasta carreira uma vez que todas as 11 canções poderiam muito bem ser singles.
Destaques: Take me out; Jacqueline; The dark of the Matinee; Darts of Pleasure; 40´.



3º- Once more with Felling- Placebo:Apesar de ser um greatest-hits, não é por isso que deixa de ser um excelente álbum. Em 19 músicas se faz uma revisão dos 10 anos desta original banda que concilia a voz estridente do vocalista Brian Molko com uma potente guitarra e bateria. “Once more with feeling” é um poderoso álbum onde desfilam os grandes sucessos dos Plabebo, passando por uma versão francesa da música “Protect me” até à nova música “Twenty years”. Esta compilação trás ainda um álbum de remisturas feitas por nomes como U.N.K.L.E, Junior Sanchez, Les Rythmes Digitales, entre outros.
Destaques: Pure Morning, Every you Every me; Taste in men; Special K; Special needs.



4º - Am/Fm- The Gift: Ao terceiro álbum, a banda portuguesa está mais madura e com uma sonoridade mais consistente e definida. Este último álbum é composto por dois discos: “Am”, o lado mais doce e intimista, e “Fm”, o lado mais poderoso e agressivo. Estes dois lados são como um só uma vez que se completam um ao outro.
O melhor disco nacional do ano 2004, repleto de muito boas músicas com excelentes melodias e letras.
Destaques: Are you near; Fácil de Entender; Wallpaper; Driving you slow; Music;



5ª- Hopes and Fears- Keane: À semelhança do que aconteceu com os Franz Ferdinand, o álbum de estreia desta banda britânica causou muito furor por toda a Europa. Há quem lhes chame "os novos Coldplay" mas, na verdade, os Keane têm uma sonoridade muito própria, um pop/rock tipicamente britânico, mas mais doce. Essa doçura provém da voz magnificamente límpida e transparente do vocalista Tom Chaplin.
Destaques: Somewhere Only We Know; We Might as Well Be Strangers; Can't Stop Now; Bedshaped.



6º - When it Falls- Zero 7: O último álbum dos Zero 7 é aquilo a que se pode chamar um álbum caloroso e envolvente. À medida que vamos descortinando as músicas, somos transportados para um universo puramente melódico. As vozes quentes e aveludadas de Sia Furler, Tina Dico e Sophie Barker são simplesmente irresistíveis.
Destaques: Home; Somesault; Passing by; When it falls; The space between.

terça-feira, fevereiro 15, 2005

"Un long dimanche de fiançailles" (2005), Jean-Pierre Jeunet



O amor move montanhas

Depois do mega-sucesso “Le Fabuleux Destin d'Amélie Poulain”, Jean-Pierre Jeunet e Andrey Tatou voltam a encontrar-se num filme que nada tem a ver com o seu antecessor.
“Un long dimanche de fiançailles” fala-nos dos tempos da Primeira Guerra Mundial e da busca incessante que uma mulher, Mathilde, emprega à procura do seu noivo desaparecido nas trincheiras.

Mathilde (Andrey Tatou) e Manech (Gaspard Ulliel) são dois jovens separados pelo terror da guerra quando este último é chamado para ir combater pelo seu país.
Passado uns meses, Mathilde recebe a notícia de que o seu noivo morreu e começa então uma viagem tumultuosa à procura de Manech, viagem essa que tem como força motora o seu enorme amor por ele. Ela não acredita que o seu amado morreu pois se isso tivesse acontecido, ela própria iria senti-lo.
A determinação, carácter e força desta mulher são as próprias asas que ela ganha para ir ao encontro daquilo que ela tem de mais precioso na vida: o seu enorme amor.

A interpretação de Andrey Tatou é irrepreensível apesar de não ter o brilho e vivacidade da sua Amélie (é o estigma…). Jodie Foster também está muito bem no seu papel (apesar de curto e algo fugaz) ao falar um francês impecável , tal como todos os restantes actores secundários.

Um dos pontos fortes deste filme, senão o mais forte, é o seu aspecto visual. A fotografia em tons cinza para retratar a guerra, e em tons pastel para retratar a paz e o conforto do lar, são regalos para os olhos devido à extrema beleza que imanam.
Também as paisagens são arrebatadoras, principalmente as das cenas que sobrevoam o farol e os campos floridos.

O argumento é bastante confuso uma vez que tem demasiadas personagens e inúmeras histórias paralelas que só servem para baralhar o espectador. A certa altura, o filme torna-se bastante labiríntico com todos os episódios que vão surgindo para confundir os sentimentos e a esperança de Mathilde, mas que também acabam por baralhar e saturar o próprio espectador.

Algo que poderia ter sido um excelente exercício cinematográfico, falha pelo argumento e falta de profundidade em determinadas cenas. No entanto, não deixa de ser um bom filme, com grandes interpretações e uma soberba fotografia.
Merece ser visto, nem que seja só pela sua enorme beleza visual.

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"Garden State" (2005), Zach Braff



I know it hurts. But it’s life and it's real. And sometimes it fucking hurts, but it's life, and it's pretty much all we got.

Por vezes são os filmes mais simples os que mais nos tocam. Este é um deles.
Um filme muitas vezes não precisa de ter actores muito conhecidos ou um realizador consagrado para ser excelente. Simplicidade e sensibilidade são as duas melhores palavras para descrever esta pequena pérola do cinema não mainstream.

Andrew Largeman (Zach Braff) é um jovem de 26 que vive em Los Angeles onde tem uma carreira de actor não muito bem sucedida. Quando a sua mãe morre, Andrew volta à sua terra natal, onde não ia há 10 anos.
Andrew reencontra-se com os seus amigos dos tempos de adolescente e com o seu austero pai. Um reencontro com o próprio passado, com as amizades que lá deixou, com a sua vida de outrora.

O que parecia ser apenas uma viagem de rotina torna-se numa viagem interior, numa procura do “eu”.
Andrew conhece Sam (Natalie Portman), uma rapariga estranha e enigmática por quem se apaixona. Mais do que um simples amor, Sam transforma por completo a sua vida ao proporcionar-lhe uma nova visão do mundo. Andrew passou os 26 anos da sua vida à procura de algo, de algum conteúdo que preenchesse a sua simples existência e que o fizesse sentir mais do que um mero imbecil. Com Sam, ele descobriu que a única coisa de que teve certeza na vida foi do seu amor por ela e que tudo o resto se cingiu a uma insignificante realidade.

Zach Braff (o principal actor da série norte-americana “Scrubs”) teve neste filme a sua primeira oportunidade como realizador e argumentista. E não se saiu nada mal. O filme tem uns diálogos muito bem conseguidos, naturais, fluidos e, acima de tudo, bonitos.
As interpretações de Braff e a da actriz Natalie Portman também são muito boas, cheias de frescura e vitalidade.

A banda sonora é outro ponto que é impossível ignorar já que nos embala por todo o filme. “Don´t panic” – Coldplay, “In the waiting line” – Zero 7, “Lebanese Blonde -Thievery Corporation, “Caring is creepy” – The Shins e “Such Great Heights" – Iron and Wine são apenas algumas das músicas que compõem a fantástica banda sonora.

É na viagem à sua terra natal que Andrew vai vencer e enfrentar finalmente todos os fantasmas do passado que o perseguem e descobrir que a vida afinal ainda vale a pena ser vivida.
Este é o primeiro grande filme de2005.

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segunda-feira, fevereiro 14, 2005

"Ray"(2005), Taylor Hackford



I'm trying to do something ain't nobody ever done in music and business.

Ray Charles é um ícone incontornável da música por ter conseguido conciliar gospel, soul, r&b, jazz e country numa sonoridade única. Criou assim um novo estilo musical que, na sua época, foi considerado por muitos como um “som de Satanás” e demasiado sexual e, por outros, como um som libertador e inovador.

Tendo nascido numa cidade pobre, Ray desde cedo despertou um grande interesse pela música e pelo universo dos sons. Ficou cego aos 7 anos após ter sofrido um trauma ao ver o seu irmão mais novo morrer afogado. A partir daí a sua mãe sempre o incentivou a lutar pelos seus interesses e a nunca admitir que o tratassem como um inadaptado.

“Ray” retrata o percurso do músico até se tornar uma estrela internacional. Desde os tempos em que ninguém parecia acreditar nele, à passagem pelo vício da heroína, acabando nas inúmeras relações amorosas (mesmo estando casado), quase toda a vida do músico é explorada neste filme.

Jamie Foxx tem uma prestação notável, conseguindo captar a essência de Ray Charles e todos os seus “tiques”. Por vezes as semelhanças físicas e gestuais são assombrosas, de tão bem representadas que estão. Do músico frenético apaixonado pelo que faz mas que se deixa envolver pelos caminhos da droga, passando pelo homem das mil paixões, Jamie Foxx consegue na perfeição dar corpo a todas estas “facetas” de Ray Charles.

Como não podia deixar de ser, o filme tem uma excelente banda sonora que percorre os maiores êxitos do cantor. As cenas dos próprios concertos são as mais bem conseguidas do filme, que abusa, a meu ver, de demasiado sentimentalismo.
Não deixa por isso de ser uma boa “biopic” de um dos maiores músicos dos nossos tempos.

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domingo, fevereiro 06, 2005

"The Aviator" (2005), Martin Scorsese



The way of the future.

O novo filme de Martin Scorsese retrata a vida (parte dela) do visionário americano Howard Hughes, o homem que construiu os aviões mais rápidos da sua época, que deu a volta ao mundo em 3 dias, que namorou com as actrizes do momento e que realizou e produziu filmes (destaque para o seu primeiro sucesso,"Hell´s Angels", que demorou 3 anos até estar concluído, e o seu western erotizado "A Terra dos Homens Perdidos"). Tudo isto se passa maioritariamente nos anos 30/40, ou seja, durante os "early days" do milionário.

Mas Howard Hughes era mais do que os seus aviões. Era um homem que tinha os olhos postos no futuro, capaz de enfrentar tudo e todos para levar a avante as suas ideias. A sua vida foi repleta de sonhos e de brilho mas também de fracasso, de desilusão e de loucura. Hughes tinha um distúrbio mental, tão bem exposto no filme por Leonardo Dicaprio. Um homem que aparentemente tinha tudo mas que na realidade vivia sufocado pela sua doença e pelos seus medos.

Há papéis que se tornam inesquecíveis, tanto para o actor que o representa, como para o público que o vê. Leonardo Dicaprio teve a oportunidade máxima de expor todas as suas potencialidades dramáticas ao encarnar Howard Hughes. A sua interpretação esplêndida vai ficar para sempre na história do cinema pois Dicaprio tem aqui o que poderá muito bem ser o papel da sua vida.
Dicaprio capta da perfeição o comportamento obsessivo-compulsivo de Howard Hughes, a sua eterna luta contra os micróbios, o lavar de mãos excessivo, o medo do pó, a repetição exaustiva de frases, etc. Dicaprio carrega na sua voz, no seu olhar e nos seus gestos, toda a fragilidade e medos mas também toda a preserverança de Howard Hughes.
Dicaprio é um dos potenciais vencedores ao Óscar de melhor actor e parece-me ser o candidato mais merecedor do prémio.

Destaque também para as actrizes secundárias Cate Blanchett ( uma Katherine Hepburn um pouco irritante de início , mas depois de passar a estranheza inicial apresenta-se bastante verosímel) e Kate Beckinsale ( uma Ava Gardner lindíssima).

"The Aviator" é um belíssimo filme com excelentes interpretações e uma escolha de actores acertada. Peca, no entanto, ao ser tão extenso e ao ter uma banda-sonora pouco variada.

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quinta-feira, fevereiro 03, 2005

"Closer" (2005), Mike Nichols



Hello Stranger!

Muitos são os filmes que retratam as relações entre homens e mulheres. Mas poucos são aqueles que nos mostram o lado frio, cru e real dessas mesmas relações.

"Closer" é uma história de “amor” não convencional: a história de dois homens e duas mulheres que a dada altura se encontram e se apaixonam e começam a viver num rodopio interminável de sentimentos/situações. O filme retrata apenas as relações que estas quatro pessoas (man)têm entre si. Mas será que no meio de traições, mentiras e atracções existe espaço para o amor entre estas pessoas?

As interpretações magníficas e bastante físicas de Julia Roberts, Jude Law, Natalie Portman e Clive Owen, aliadas à naturalidade e teatralidade dos textos (ou não fosse este filme inspirado numa peça de teatro) criam no espectador a ideia de que aquela história é real e que poderia ser muito bem a nossa própria história, um retrato fiel das nossas relações.
Se para uns o filme acaba mal, para outros acaba bem. Mas não é isso que se passa na vida real?

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"Are you near" - The Gift

Because everything had to be a happy end. I began to say that nothing is about love. Intelligent and lovely persons, like those films that we watched on TV, intelligent and lovely women, like we watched on TV. Those murders during the night, stupid life, drugs of all kind… do you want to see me like them? So tell me baby please, are you near? Just tell me one more time, are you near? Sometimes I know you’re not as I wish, and I look at your window, there’s a light, something in… and I pass by and buzz around your corner, the telephone rings, you didn’t answer… please! Only one more time, are you near? So scream at window and tell me that you’re near. And I wonder if you told me that… like in "Lost in Translation" please do that! They look at those neon lights, the love on their face… And loving all life, loving or lie, just one more lie… Tell me baby please, are you fucking near? Because I don’t know, so open you fucking mouth and tell me that you’re near.