segunda-feira, fevereiro 21, 2005

"Vera Drake" (2005), Mike Leigh



Wife. Mother. Criminal.

O aborto nunca foi um tema fácil de tratar por todas as implicâncias sociais e pessoais que do seu acto advêm. Esta questão continua a dividir opiniões por todo o mundo, nomeadamente em Portugal onde a sua prática ainda continua a ser ilegal.

Vera Drake (Imelda Staunton ) é uma mãe de família como tantas outras, com dois filhos e um casamento feliz, que trabalha como empregada doméstica. Esposa e mãe ideal, Vera dedica-se no entanto a fazer abortos clandestinamente a jovens que lhe pedem ajuda. Às escondidas da própria família, esta mulher dócil e dedicada pratica aquilo que na sua época e no seu país (anos 50 em Inglaterra) ainda é considerado como crime.

Mas o que leva esta mulher, uma autêntica fada-do-lar, a cometer estes “crimes”? Para Vera, é uma missão ajudar aqueles que precisam de apoio. Ao fazer os abortos, esta mulher só vê que está a ajudar pobres raparigas e não que está a ir contra uma lei do seu país. Por isso o seu choque é ainda maior quando vê entrarem em sua casa agentes policiais. Vera não tem consciência dos seus crimes pois julga que está simplesmente a tentar melhorar a vida das mulheres (Vera nem sequer cobra dinheiro pelos abortos, apesar de levar uma vida não muito folgada).

O altruísmo desta mulher é estrondoso, não sendo ela capaz de dizer “não” a alguém que vem à procura do seu auxílio. O olhar e a simplicidade comovente desta mulher são incompatíveis com a atitude de uma criminosa. E é aqui que entra a grande talento da actriz Imelda Staunton, numa representação de ir às lágrimas (no bom sentido). A paixão, fulgor, carisma, pureza e até ingenuidade da personagem são transportas para o ecrã pela placidez e enorme talento de Imelda Staunton.

A câmara de Mike Leigh penetra no fundo desta alma, transpondo para o ecrã um rosto sereno, humilde, comovente e maternal. É impossível não simpatizarmos com Vera quer sejamos contra ou a favor do seu trabalho part-time como abortadeira.
“Vera Drake” é um filme austero e bastante realista, não se preocupando muito com recursos visuais ricos. Apenas nos mostra o lado cru e frio da vida quotidiana daquela mulher numa Londres na pós-Segunda Guerra Mundial.

Este filme não pretende impor nenhuma ideia política perante o tema do aborto, pretende sim, de alguma maneira, consciencializar para este problema que ainda continua a afectar muitos países na nossa sociedade, dita moderna.
Ainda hoje se continuam a perseguir mulheres criminalmente pela prática de abortos.
É aconselhável a todas as consciências verem este filme.

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