quinta-feira, março 31, 2005

"Be cool" (2005), F.Gary Gray



What do you say to a man with two black eyes? Nothing, you've already told him twice

Este é daqueles filmes em que se prova que ter um leque de gente famosíssima não contribui em nada para fazer uma boa obra.
Actores e cantores bem nossos conhecidos (alguns infelizmente…) tentam a todo o custo abrilhantar este filme que já estava predestinado a ser mau.

Chili Palmer (John Travolta) é um produtor de filmes que decide abandonar a carreira no mundo cinematográfico para poder dedicar-se ao universo musical. Encontra a jovem aspirante a cantora Linda Moon (Christina Milian) e decide ser o seu novo manager juntamente com Edie Athens (Uma Thurman).
Claro que isto tudo não se desenrola pacificamente e é então que entra em cena uma baralhação de personagens e situações: desde a máfia russa até aos rappers gangsters, passando pelos Aerosmith e acabando num guarda-costas gay, tudo serve de paródia em "Be Cool".

Era suposto (ou pelo menos eu penso que era) este filme caricaturar o universo da música dita da moda e os bastidores desse negócio. Mas não é isso que se passa: “Be Cool” é um filme parvo que não tem ponta por onde se lhe pegue. Apenas se limita a fazer umas piadas com personagens-tipo sem profundidade nem interesse nenhum.

No meio de toda esta mediocridade encontramos a belíssima e talentosa Uma Thurman.
Para os fãs de “Pulp Fiction” de Quentin Tarantino (como eu) poderá ser interessante voltar a encontrar Uma Thurman e John Travolta de novo juntos no ecrã e ainda por cima a dançar numa das cenas (que foi claramente inspirada no dito filme). Claro que em “Be Cool” não vemos a originalidade da dança do “Pulp Fiction” (a música dos Black Eyed Peas também não ajuda em nada) mas podemos sentir uma empatia e magia enorme entre os dois actores. Ao menos isso.

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"Hotel" (2005) - Moby



Os quartos íntimos de Moby

Moby está mais intimista e introspectivo. E isso nota-se no seu último álbum, “Hotel”.
“Hotel” é inspirado na vida do seu autor, na música que este ouvia enquanto crescia, nas suas vivências. E por ser o seu álbum mais pessoal está também desprovido dos samplers que tanto caracterizavam os seus trabalhos anteriores. Em “Hotel” é unicamente Moby e a sua amiga de longa data Laura Dawn que dão voz aos temas cantados.
Enquanto que os anteriores “Play” e “18” estavam centrados em sonoridades ambientais e chill-out com alguns toques de gospel, hip-hop, soul, e tecno, “Hotel” é assumidamente mais rock.
Moby fez um disco bastante eclético onde podemos encontrar músicas de dança, rock e baladas sem fugir muito a uma certa linearidade que caracteriza a sua música. Ou seja, ao ouvirmos “Hotel” percebemos que houve uma viragem na sonoridade mas somos bem capazes de sentir e ouvir as marcas sonoras presentes na música feita por Moby já anteriormente. Apesar de ser um disco mais rock, com mais guitarras e influenciado pelo pós-punk, não deixamos de ouvir as típicas orquestras ambientais que tão bem estão presentes em todos os seus trabalhos.
Também é de realçar o cd2, “Hotel:Ambient” que podemos encontrar na edição especial do disco. São 11 músicas de música puramente ambiente, tal como o nome indica.

Destaques:

- Hotel Intro: :a música introdutória tem o mesmo nome que o álbum uma vez que é aqui que tudo começa. Nesta música instrumental somos como que confrontados com o passado visto ser a música que mais nos lembra o anterior álbum “18”. Suave e calma, é a música que nos inicia a viagem pelo “Hotel” de Moby.

- Lift me up: o single de apresentação não poderia exemplificar melhor o tipo de som que está representado ao longo do álbum. Apesar de não ser das melhores músicas, tem um refrão fantástico e viciante.

- Where you End: a melhor música e letra. Esta música pop com ressonâncias dos anos 80 concilia uma sonoridade dançante e vibrante com uma letra de amor e saudade.

- Temptation: cover da música dos New Order com o mesmo nome é substancialmente diferente da original. O êxtase da música original é aqui substituído pela calma e quietude de uma balada interpretada por Laura Dawn.

- Very: música mais dancável de todo o álbum. Pop electrónico que soa (e muito) a Goldfrapp nos seus delírios vocais e energia.

- I like It: considero esta música bastante sensual. Apesar de não ter uma letra muito composta, a dueto das vozes sussurrantes de Moby e Laura Dawn resulta magnificamente.

- Love Should: a melhor balada de todo o álbum. É aqui que Moby parece assumir todas as suas fragilidades uma vez que esta letra retrata uma relação amorosa vivida pelo próprio. Triste e nostálgica, é impossível ficar indiferente a esta balada.

- Homeward Angel: fecha-se o ciclo iniciado pela música “Hotel Intro”. A última música do álbum, à semelhança da primeira, é também apenas orquestral. O que uma inicia, a outra conclui. Mais intimista e melancólica que a primeira pois é aqui que a visita pelos quartos íntimos de Moby acaba.


O tão esperado novo trabalho de Moby não desilude. Apesar de não ter a força e magia dos seus anteriores sucessos “Play” e “18”, “Hotel” não deixa de ser um bom álbum com fantásticas músicas. Ao ouvirmos este “Hotel” percebemos o prazer honesto que Moby tem em fazer música. É um disco mais vulnerável por ser mais íntimo e pessoal, mas foi isso que o seu criador pretendeu.

7/10

terça-feira, março 29, 2005

"The Life aquatic with Steve Zissou"(2005), Wes Anderson



Are you finding what you were looking for... out here with me? I hope so.

Há quem considere Wes Anderson um génio capaz de fazer filmes extraordinários. Por qualquer razão que ainda desconheço, os dois filmes que vi deste realizador (dois filmes considerados por muitos como filmes de culto) não conseguiram cativar-me grandemente. Tal como no antecessor “The Royal Tenenbaums”, as expectavivas eram enormes e acabaram em jeito de desilusão.

Steve Zissou (Bill Murray) é um famoso explorador subaquático (homenagem a Jean-Jacques Costeau) que pretende fazer do seu próximo documentário a caça ao mítico tubarão-jaguar que matou o seu melhor amigo Esteban (Seymour Cassel). A vingança é o propósito que guia Zissou e a sua irreverente e excêntrica tripulação nesta nova viagem que se lhe vai revelar muito maior em termos de importância e significado.

O principal ponto do filme centra-se na personagem de Steve Zissou e nos seus conflitos com as outras pessoas: com a esposa Eleanor (Anjelica Huston), com o suposto filho Ned (Owen Wilson), com o eterno inimigo Alistair Hennessey (Jeff Goldblum), etc.
Zissou surge como um estranho e carismático homem que apenas se sente feliz no seu mundo natural: o mundo aquático.

Apesar de não ser um filme genial é inegável a sua originalidade e “toque” especial. É um filme centrado no valor das personagens (como no anterior “The Royal Tenenbaums”) e nas suas dissonâncias.
O clima algo fantasioso cria uma atmosfera única e utópica, magnificamente conciliada com as imagens de animação do mundo aquático criadas por Henry Sellick, realizador de “O Estranho Mundo de Jack” e “The Nightmare Before Christmas”.
Bill Murray também está fantástico, ao mesmo nível do seu anterior papel como Bob Harris no filme "Lost in Translation".

Um ponto a destacar é também a não menos original banda-sonora quase toda interpretada à guitarra e em português pelo brasileiro Seu Jorge (que desempenha um dos membros da equipa de Zissou). Temas de David Bowie que foram traduzidos pelo próprio actor/cantor brasileiro para este filme.

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domingo, março 27, 2005

"Where you End" - Moby

Some things fall apart
Some things makes you hold
Something that you find
Are beyond your control

I love you and you're beautiful
You write your own songs
But if the right part is leaving
Turned out to be wrong

If I could kiss you now
I'd kiss you now again and again
I don't know where I begin
And where you end

Thought I fell in love the other day
With an old friend of mine
I was running kisses
Down every inch of the spine

We had the roof down
The sun came shining in
The black fact is...that I was thinking of you

If I could kiss you now
I'd kiss you now again and again
I don't know where I begin
And where you End

I slept in the sun the other day
I thought I was fine
Everything seemed perfect
Until I had you on my mind

I tried to love you
I did all that I could
I wish that the bad now
And finally turned into good

If I could kiss you now
I'd kiss you now again and again
I don't know where I begin
And where you End

If I could kiss you now..
If I could kiss you now..
If I could kiss you now..

Oh where you end,
Is where I begin.

Oh where you end
Oh where you end
Oh where you end


terça-feira, março 22, 2005

"House of the Flying Daggers", Zhang Yimou (2005)



Em silêncio ouvimos todos os sons do mundo. Nenhum é insignificante.

O novo filme de Zhang Yimou (realizador de “Hero”) trás de volta ao cinema a ancestralidade chinesa em toda sua forma. Um filme épico, carregado de referências milenares que são pintadas no ecrã com grande mestria.

“House of the Flying Daggers” (no original “Shi Mian Mai Fu”) acompanha o jovem capitão Jin (Takeshi Kaneshiro) na sua conquista pela confiança de Mei (interpretada pela belíssima Ziyi Zhang) , uma das mais brilhantes guerreiras da organização secreta da China do século IX, “O segredo dos punhais voadores, uma das facções da oposição do poder governativo.
Contudo o plano não corre como o esperado pois os dois jovens apaixonam-se, tornando-se um pouco previsível esta história de um amor impossível.

O que este filme tem de tão especial é mesmo todo o seu aspecto visual. Apesar de um argumento algo pobre, o filme ganha (e muito) ao ter em cada plano o que poderia ser uma pintura. Imagens sumptuosas, cheias de cor e vitalidade, que parecem ter sido pinceladas com todo o cuidado. As cenas de luta são de tal forma belas e coreografadas que parecem autênticos bailados.

Este não é um filme sobre artes marciais e acrobacias. Pelo menos dizer isso é algo redutor. Esta é uma história de amor como tantas outras já retratadas em milhares de filmes: um famoso triângulo amoroso que não pode acabar bem. Mas apesar da história em si não ser nada original nem diferente, o filme é grande. “House of the Flying Daggers” é um verdadeiro deleite para os olhos tendo as imagens mais bonitas que vi no cinema nos últimos tempos.

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sábado, março 19, 2005

Ballet Gulbenkian – "Le Sacre du Printemps + Organic Spirit, Organic Beat, Organic Cage"


A vanguarda da dança portuguesa.

Já há muitos anos que o Ballet Gulbenkian se tem vindo a afirmar como a maior companhia de dança moderna do nosso país.
O seu sucesso num país que não liga muito à arte da dança pode ser explicada pela abertura
da companhia a diversos estilos. Uma das principais características do Ballet Gulbenkian é mesmo não estar confinado a nenhuma matriz nem orientação única. Procurando sempre novas linguagens coreográficas, esta companhia tem vindo a desenvolver um enorme papel no tão escasso mundo da dança portuguesa.

O mais recente programa da companhia junta a coreógrafa canadiana Marie Chouinard e o director artístico e coreógrafo português Paulo Ribeiro nas obras “Le Sacre du Pintemps” (“A Sagração da Primavera”) e “Organic Spirit, Organic Beat, Organic Cage”.

Tendo por base a famosa partitura de Stravinsky, Marie Chouinard cria uma obra sobre a origem e o desenvolvimento das forças originais. Nesta sua “Sagração da Primavera” vemos os bailarinos despojados de roupa (apenas com uns calções pretos) dançando de uma forma bastante sensual e física. Foi deixada de parte qualquer preocupação na harmonia dos movimentos que nos parecem, mais que nunca, viscerais e orgânicos. Marie Chouinard trabalhou sobretudo solos onde cada bailarino sobressai pelos seus movimentos frenéticos e cerebrais, iluminados apenas por um foco de luz pastel.
Como diz a coreógrafa, "Não existe história na minha Sagração. Para mim é como se lidasse com o último instante imediatamente anterior ao primeiro momento de vida. O espectáculo é o desdobrar desse momento. Sinto que antes desse momento terá existido uma extraordinária explosão de luz, um clarão de iluminação".


Paulo Ribeiro criou uma coreografia inédita a ser interpretada em estreia absoluta neste programa de Março. “Organic Spirit, Organic Beat, Organic Cage” é uma obra que é dançada em sintonia por todo elenco da companhia. É portanto uma obra colectiva onde cada bailarino desempenha um importante papel na sua construção e interpretação. Este organicismo que aparece referido do título da obra mostra-se bem patente na coreografia simples, bastante natural e sem artifícios maiores. A música é um dos factores cruciais nesta criação: interpretada ao vivo pelo grupo de percussão “Drumming” seguindo as pautas escritas por John Cage. Os bailarinos vão seguindo as notas tocadas como se a música se libertasse pelos seus corpos.Uma obra de exaltação da energia e do corpo como instrumento, que ganha vida ao ter um ecrã como fundo onde vão passando imagens dos próprios movimentos dos bailarinos.



Apesar de ter gostado das duas obras apresentadas, estava à espera de melhor. Pela primeira vez saí de um espectáculo do Ballet Gulbenkian com a sensação que faltou fulgor e beleza às duas criações. O guarda-roupa não ajudou muito, sendo de uma simplicidade e palidez exagerada.
Os movimentos mecanizados dos bailarinos tornaram-se demasiado repetitivos ao longo das duas obras, perdendo aquela naturalidade e libertação que lhes eram supostos.

sábado, março 12, 2005

Concerto Keane - Coliseu dos Recreios 10 Março 2005


A guitarra invisível dos Keane

A estreia dos britânicos Keane pelos palcos nacionais era aguardada com muita expectativa, ou não estivessem os bilhetes já esgotados há várias semanas. O público esperava ansiosamente por ver ao vivo esta banda de três rapazes ingleses que conseguiram pôr o seu álbum de estreia nas tabelas dos discos mais vendidos e aplaudidos de 2004. A curiosidade para ver a magia deles era mais que muita, o que fez com que o Coliseu de Lisboa enchesse ontem à noite (10 Março).
Outra razão que acredito que possa ter contribuído para a grande afluência de público (ou pelo menos parte dele) foi o músico que assegurou a primeira parte do concerto: Rufus Wainwright.

Pela terceira vez no nosso país (depois do desastroso primeiro concerto no Festival de Vilar de Mouros de 2003 e do regresso bem aceite no ano seguinte na Aula Magna de Lisboa), Rufus Wainwright parece ter conquistado finalmente o público português. Sendo considerado um dos melhores songwritters dos dias de hoje, o músico canadiano veio apresentar ao nosso país o seu último trabalho, “Want Two” (álbum já considerado como um dos melhores do ano). Rufus começou a sua pequena actuação (de apenas 45 minutos) com a música introdutória do último trabalho: “Agnus Dei”, um cântico em latim com uma performance vocal arrepiante. Rufus tocou e cantou basicamente músicas do seu mais recente álbum mas foi sem dúvida com a música “Cigarettes and Chocolate Milk” do álbum “Poses” de 2002, que conseguiu fazer com que o público vibrasse e cantasse. A sua prestação vocal é irrepreensível e muito mais madura e segura comparada com a sua primeira incursão por terras lusas (ter a sua banda a acompanhá-lo também é um ponto a favor e tal não aconteceu em Vilar de Mouros).
Rufus Wainwrigth prometeu voltar em breve e em concerto próprio. O público agradece.




Passados uns longos minutos de espera ao som de músicas muito bem escolhidas, os Keane entraram a abrir com uma das melhores músicas do seu álbum: "Can´t Stop Now". Cativaram logo desde primeira música o público que esperava ansiosamente por um grande espectáculo. Os Keane não desapontaram, muito pelo contrário: mostraram ser uma banda bastante consistente ao vivo, com uma energia e poder muito maior do que estúdio. Na verdade, ao vivo as suas músicas ganham outra dimensão, muito mais forte e sonora. Não admira que não precisem de guitarras, conseguindo o piano de Tim Rice-Oxley soar de tal maneira forte e agressivo que torna qualquer guitarra inútil.
Com um só álbum para apresentar, os Keane tocaram praticamente todas as músicas do álbum de estreia “Hopes and Fears”. Apresentaram mais três músicas inéditas que possivelmente irão ser editadas num próximo trabalho em que a banda britânica já está a trabalhar. Uma das músicas é especialmente bonita, fazendo lembrar (e muito) as melodias estranhas e oceânicas dos Sigur-Rós.
Os momentos altos do concerto foram mesmo a balada “We might as well be strangers” e o mega-sucesso da banda “Somewhere only we know” (onde o público todo revelou num grande à vontade ao saber a letra de cor).
A meio do concerto o pano que servia de fundo ao palco deu lugar a um ecrã onde foram passando variadíssimas imagens desde histórias de encantar até paisagens cobertas de neve.
Tom Chaplin, o vocalista, mostrou ter uma belíssima voz, transparente como as suas músicas e letras.



O concerto foi bastante bom e superou as minhas expectativas. A banda britânica conseguiu provar e vincar o seu valor a nível musical mostrando como é possível fazer um grande álbum e um grande concerto apenas com uma voz, bateria, piano e um punhado de boas melodias e letras.
Agora é esperar e ver e evolução desta grande promessa da música europeia.

terça-feira, março 08, 2005

"Being Julia" (2005), István Szabó



O teatro da vida

O que resta de “Being Julia” sem ser a fantástica Annette Benning? Este é um daqueles casos gritantes em que um filme sobrevive às costas de uma actriz e de uma fabulosa interpretação. Tudo o resto passa-nos completamente ao lado, só somos capazes de ver Annette Bennig numa interpretação larger than life. E é apenas isso que consegue salvar este filme.

Mary Lambert (Annete Benning) é uma famosa e talentosa actriz de teatro na Londres do final dos anos 30. Com uma carreira cheia de sucesso, Julia sente-se insatisfeita a nível pessoal e atravessa a tão famosa “crise da meia-idade”. É então que surge Tom (Shaun Evans), uma lufada de ar fresco na vida da actriz. Com a sua jovialidade e charme conquista Julia e os dois tornam-se amantes.
Claro que uma história amorosa destas não poderia resultar. Tom apaixona-se por uma jovem actriz da sua idade e Julia, que parece aceitar perfeitamente a situação, pretende vingar-se.

Temos pois um argumento pobríssimo e uma realização algo antiquada. O que nos resta é mesmo o brilhantismo de Annete Benning ao dar vida a Mary Lambert, uma mulher cheia de caprichos e que está constantemente a representar, até mesmo na vida real.
Jeremy Irons, um grande actor (um dos meus favoritos) passa despercebido neste filme onde só brilha mesmo Annete Benning.
Apesar de não ser um bom filme, consegue ter os seus bons momentos pricipalmente nas cenas do teatro.

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quarta-feira, março 02, 2005

"Mar Adentro" (2005), Alejandro Amenábar



La vida sin libertad non es vida

O novo filme do chileno Alejandro Amenébar retrata a vida de um homem galego que lutou durante anos para poder morrer com dignidade. Esta é a história verídica de Ramón Sampedro, tetraplégico que defendeu que a vida não era uma obrigação mas sim um direito.
É impossível apagar da memória o seu legado pois este homem veio acordar um problema social que hoje, mais que nunca, levanta ainda inúmeras questões éticas.

“Mar adentro” transporta-nos para as paisagens lindíssimas e ofegantes da Galiza. É pela janela do seu quarto (o único contacto com o exterior) que Ramón (Javier Bardem) viaja na sua mente por lugares onde está incapacitado de visitar fisicamente. A janela é a sua única porta com o exterior e o quarto o seu eterno refúgio.

As relações de Ramón com os seus familiares e amigos são um componente essencial no filme. As dúvidas e certezas, o medo e a coragem, a dor e o sofrimento são apenas alguns dos sentimentos que assaltam estas pessoas que, brilhantemente, nos parecem reais. Toda a componente dramática que um filme sobre este assunto requer está eximiamente retratada por todos os actores, especialmente pelo fantástico Javier Bardem. É ele quem mais brilha neste filme numa composição dramática e esperançosa do homem que luta por aquilo que considera um direito.

A eutanásia não é um tema fácil de abordar mas felizmente Alejandro Amenábar não caiu no erro de fazer um filme lamechas e de sentimentalismo barato. É uma história de luta que nos envolve suavemente.
“Mar Adentro” foi o vencedor merecidíssimo do Óscar de melhor filme estrangeiro.

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