sábado, março 19, 2005

Ballet Gulbenkian – "Le Sacre du Printemps + Organic Spirit, Organic Beat, Organic Cage"


A vanguarda da dança portuguesa.

Já há muitos anos que o Ballet Gulbenkian se tem vindo a afirmar como a maior companhia de dança moderna do nosso país.
O seu sucesso num país que não liga muito à arte da dança pode ser explicada pela abertura
da companhia a diversos estilos. Uma das principais características do Ballet Gulbenkian é mesmo não estar confinado a nenhuma matriz nem orientação única. Procurando sempre novas linguagens coreográficas, esta companhia tem vindo a desenvolver um enorme papel no tão escasso mundo da dança portuguesa.

O mais recente programa da companhia junta a coreógrafa canadiana Marie Chouinard e o director artístico e coreógrafo português Paulo Ribeiro nas obras “Le Sacre du Pintemps” (“A Sagração da Primavera”) e “Organic Spirit, Organic Beat, Organic Cage”.

Tendo por base a famosa partitura de Stravinsky, Marie Chouinard cria uma obra sobre a origem e o desenvolvimento das forças originais. Nesta sua “Sagração da Primavera” vemos os bailarinos despojados de roupa (apenas com uns calções pretos) dançando de uma forma bastante sensual e física. Foi deixada de parte qualquer preocupação na harmonia dos movimentos que nos parecem, mais que nunca, viscerais e orgânicos. Marie Chouinard trabalhou sobretudo solos onde cada bailarino sobressai pelos seus movimentos frenéticos e cerebrais, iluminados apenas por um foco de luz pastel.
Como diz a coreógrafa, "Não existe história na minha Sagração. Para mim é como se lidasse com o último instante imediatamente anterior ao primeiro momento de vida. O espectáculo é o desdobrar desse momento. Sinto que antes desse momento terá existido uma extraordinária explosão de luz, um clarão de iluminação".


Paulo Ribeiro criou uma coreografia inédita a ser interpretada em estreia absoluta neste programa de Março. “Organic Spirit, Organic Beat, Organic Cage” é uma obra que é dançada em sintonia por todo elenco da companhia. É portanto uma obra colectiva onde cada bailarino desempenha um importante papel na sua construção e interpretação. Este organicismo que aparece referido do título da obra mostra-se bem patente na coreografia simples, bastante natural e sem artifícios maiores. A música é um dos factores cruciais nesta criação: interpretada ao vivo pelo grupo de percussão “Drumming” seguindo as pautas escritas por John Cage. Os bailarinos vão seguindo as notas tocadas como se a música se libertasse pelos seus corpos.Uma obra de exaltação da energia e do corpo como instrumento, que ganha vida ao ter um ecrã como fundo onde vão passando imagens dos próprios movimentos dos bailarinos.



Apesar de ter gostado das duas obras apresentadas, estava à espera de melhor. Pela primeira vez saí de um espectáculo do Ballet Gulbenkian com a sensação que faltou fulgor e beleza às duas criações. O guarda-roupa não ajudou muito, sendo de uma simplicidade e palidez exagerada.
Os movimentos mecanizados dos bailarinos tornaram-se demasiado repetitivos ao longo das duas obras, perdendo aquela naturalidade e libertação que lhes eram supostos.