sábado, abril 30, 2005

"Employment"(2005) - Kaiser Chiefs



Na Na Na Na Naa – Let´s dance!

2004 foi o ano da consagração dos escoceses Franz Ferdinand, 2005, ao que parece em termos de música britânica e europeia, é o ano dos Kaiser Chiefs e do seu aclamado álbum “Employment”.
Inspirado pela citadina Londres e pelas relações amorosas da juventude rebelde, “Employment” é um ambicioso disco de estreia repleto de boas canções, melodias divertidas e refrões catchy.
Seguindo a onda revivalista (com influências dos anos 70/80), os Kaiser Chiefs conseguem apesar disso criar algo de novo na sua sonoridade que se afirma acima de tudo alegre e de certa forma ingénua. É impossível não dançar ao som desta pop contagiante, vibrante, acessível e acima de tudo enérgica. “Employment” é constituído por 12 músicas do melhor que se anda a fazer por aí.

Destaques:

- “Everyday I love you less and less”: a música com o refrão mais contagiante do álbum. Um grito de guerra para a tal “girlfriend” que a cada dia que passa está mais obcecada. Pandeiretas e sintetizadores fazem desta música a imagem de marca do tipo de som da banda britânica.

- “I predict a riot”: o primeiro single de apresentação é um verdadeiro motim (tal como o título sugere), com muitos “la la la las”, palmas e guitarradas fortes à mistura.

-“Modern Way”:mais calma que as anteriores, esta música aposta mais no uso do sintetizador e das frases curtas e directas cantadas por Ricky Wilson.

- “Na Na Na Na Naa”: é sem dúvida o título mais original deste cd. O seu refrão frenético e altamente viciante faz lembrar as músicas dos anos 60, nomeadamente dos Beatles.

-“You can have it all”: uma das músicas mais calmas do álbum, apesar de manter um bom ritmo mais uma vez repleto de influências dos anos 60. É talvez a música com a letra mais composta do álbum, retratando o fim de uma relação sem cair em lamechices.

- “Oh my God”: uma introdução original e uma melodia circular fazem desta música um objecto bastante envolvente e de alguma maneira teatral (tal como o videoclip que a retrata).

-“Time honoured tradition”: mais um refrão abusivamente (no bom sentido) catchy que nos agarra por completo numa música bastante rápida (tem a duração de 2 minutos e meio).

Apesar de “Employment” quebrar um pouco o ritmo a partir de “Oh my God” (a sexta música do álbum), não deixa de ser uma excelente estreia para uma banda que quer acima de tudo divertir-se e fazer divertir o público. Porque é mesmo esse o principal propósito da boa música pop, fazer grandes canções com melodias e letras que conseguem agarrar os ouvintes na primeira audição.



8/10

terça-feira, abril 26, 2005

“Der Untergang” (2005), Oliver Hirschbiegel



À espera da queda.

A primeira ideia que me surge quando penso neste filme é aborrecimento. O que esperava ser um bom filme sobre os últimos dias do maior ditador que alguma vez existiu veio a confirmar-se num filme sem grande substância, longo que só sobrevive pela extraordinária interpretação do actor suíço Bruno Ganz.

Baseado no testemunho da secretária de Hitler, Traudl Junge, e nas pesquisas do historiador Joachim Fest, “Der Untergang” retrata os últimos 12 dias do ditador alemão.
A ideia do realizador Oliver Hirschbiegel era dar uma imagem humana de Hitler, mostrar o homem ao invés do monstro. Mas como me parece óbvio, já todos sabemos à partida que Hitler era um homem e é por essa mesma razão que todas as suas atrocidades chocam ainda mais.
Esta intenção de humanizar o ditador concretizasse apenas em alguns momentos em que vemos por exemplo Hitler a dar festinhas à sua cadela, a beijar Eva Braun, a ser atencioso com as mulheres, etc.

O argumento é pobre o que é uma pena. Poderia ter sido melhor trabalhado e com certeza daria um filme bastante interessante uma vez que as bases são boas.
Os momentos que acompanham Hitler são sem dúvida os melhores, os mais cativantes. No entanto o filme perde-se quando ruma para as (inúmeras) personagens secundárias.

Com já referi anteriormente, o filme ganha e muito pela interpretação de Bruno Ganz, um Hitler fascinante e capaz de seduzir multidões (como o próprio ditador). Tanto nos momentos mais calmos e intimistas, como nos momentos exasperados de fúria e demência, Bruno Ganz agarra-se com grande mestria à interpretação de uma das maiores personalidades do século XX.

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domingo, abril 24, 2005

“The Interpreter” (2005), Sidney Pollack



The truth needs no translation.

Silvia Broome (Nicole Kidman) é uma intérprete das Nações Unidas que certo dia se vê envolvida numa conspiração por ter ouvido aquilo que não devia. Natural de África, Sílvia ouve sem querer alguém combinar o assassinato do presidente Zuwanie (Earl Cameron), quando este chegar daí a dias à Sede das Nações Unidas. Ao aperceber-se que também ela se vai tornar um alvo a abater, procura a ajuda dos serviços secretos. Tobin Keller (Sean Penn) assume a segurança de Sílvia mas até ele tem dúvidas da veracidade dos factos que a intérprete relata.

Esperava mais deste filme. É um thriller político com algumas ideias interessantes e, acima de tudo, dois protagonista de alto “calibre”.
Contudo, o argumento não é totalmente cativante e a mensagem que o filme pretende passar já está um pouco esgotada: a diplomacia tudo alcança ao invés da guerra e terrorismo.

“The Interpreter” tem alguns momentos bastante interessantes (como a cena do autocarro que é das que tem mais acção) mas perde-se em outras cenas que nada vêm acrescentar ao teor do filme.

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terça-feira, abril 19, 2005

"Gegen die wand" (2005), Fatih Akin



Contra a parede

Já ninguém acredita em histórias de amor. Mas em dramas tocantes acreditamos, como no caso de “Gegen die Wand”, premiado no Festival de Cinema de Berlim.

Ao contrário do que esperava, este não é um filme sobre o problema da emigração nem sobre os casamentos de conveniência. Muito mais que isso, “Gegen die Wand” é um drama poderoso, forte e fascinante sobre paixão, amor e loucura.

Sibel (Sibel Kekilli) é uma jovem turca que vive na Alemanha. Farta da sua família conservadora, pretende sair de casa e emancipar-se mas para isso necessita casar. Conhece o também turco Cahit (Birol Ünel), um homem que se entrega à bebida e às drogas pesadas depois da sua esposa morrer e é com ele com quem Sibel acaba por casar.
Ela com tendências suicidas, ele um eterno viciado no punk e desencantado com a vida, acabam por se apaixonar e enveredar numa história de extremos. O choque cultural tanto da cidade como dos seus emigrantes serve de pano de fundo a este drama.

Uma história de amor não convencional pautada de imagens realistas e visualmente fortes e chocantes, dois actores que se entregam profundamente às suas personagens, “Gegen die Wand” perturba, emociona e cativa.
Sibel Kekilli e Birol Ünel são extraordinários, ela na doçura demente de Sibel, ele nos ataques exasperados e revoltados de Cahit.

Para as mudanças de cena, encontramos um grupo a tocar músicas tradicionais turcas. É assim que se faz o contraste entre o passado cultural e social, as raízes bem profundas que dificilmente conseguimos ignorar e a modernidade cheia de excentricidades, o progresso e a vida urbana.


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sábado, abril 16, 2005

"Tourist"(2005) - Athlete



Meia-Luz…

Há uns anos, o tão aclamado brit-pop iniciado nos anos 90 por nomes como os Pulp ou Blur, voltou à carga. Os Coldplay são apontados como os grandes responsáveis por esse novo fulgor de som, que veio a inspirar muitíssimas bandas.

“Tourist” é, por muito estranho que pareça, o segundo álbum da banda britânica Athlete. Pouco (ou mesmo nada) se ouviu falar desta banda em 2003 (ano de lançamento do seu álbum de estreia “Vehicles&Animals”) e parece que este ano também não estão assim com muita sorte. O seu single de apresentação, “Wires”, raramente passa na rádio e só consegue alguma atenção por vezes na Mtv.

Ao ouvirmos “Tourist” somos transportados para ambientes melancólicos e impregnados de sofrimento como se o vocalista carregasse às costas todas as dores do mundo. As músicas têm todas um toquezinho de depressão, com um piano a dar ares de Coldplay. É inevitável fazer a comparação uma vez que a sonoridade suave e pop desta banda é do mesmo género da música feita pelos Coldplay. Mas, ao contrário da banda de Chris Martin, as músicas dos Athlete são insípidas e sem qualquer sentido de originalidade. Salvam-se o single “Wires”, “Chances” e a mais mexida “Modern Mafia”.

3/10

sexta-feira, abril 15, 2005

"The Woodsman" (2005), Nicole Kassell



12 years in prison is no joke.

Um assunto tão polémico como a pedofilia nunca é fácil de falar e muito menos de ser matéria para um filme.
Nicole Kassell conseguiu criar um outro olhar sobre este tema que incomoda toda a gente, um tema duro e de difícil “digestão”.

Depois de passar 12 anos na prisão por praticar crimes de pedofilia, Walter (Kevin Bacon) pretende seguir uma vida normal. Arranja trabalho e uma casa, curiosamente em frente a uma escola. Incapaz de fugir e esquecer o seu passado, Walter vive os dias atormentado com a hipótese de voltar a ter uma “recaída” e de o seu passado ser descoberto pelos colegas de trabalho. Com dificuldades em socializar, Walter arranja apenas algum conforto nos braços de uma mulher, Vickie (Kyra Sedgwick), que não o julga após este lhe contar o seu passado tenebroso.
Atormentado com os fantasmas dos seus crimes, é quando Walter conhece uma rapariga de 11 anos (que parece ser à partida a sua “recaída”) que percebe todo o sofrimento por que fez passar as crianças que molestou no passado.

Este filme não pretende desculpabilizar actos que por si só não podem ser desculpabilizados. Não pretende fazer com que o espectador tenha pena do pedófilo arrependido pelo que fez. É antes uma visão inteligente e real que se preocupa essencialmente em explorar a mente do pedófilo em vez de criar conclusões morais ou sociais.
Kevin Bacon é exímio nesta interpretação intensa e forte, capaz de iluminar as cenas mais sombrias com o seu talento.

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domingo, abril 10, 2005

"Birth" (2005), Jonathan Glazer



I guess we'll meet in another life.

A reencarnação é encarada por muitos como uma credível “justificação” para o que nos acontece depois de morrermos. Este filme trata sobre esse tema, o mistério da vida e da morte.

Dez anos após a morte do marido, Anna (Nicole Kidman) sente-se capaz de seguir em frente e decide voltar a casar. No entanto, conhece um rapaz de 10 anos (Cameron Bright) que afirma convictamente que é Sean, o seu falecido marido. Começando por achar aquela história bastante bizarra e estranha, Anna acaba por acreditar que o rapaz é mesmo a reencarnação do seu marido.
É durante uma ida à Ópera que Anna percebe realmente toda a importância daquela revelação que pode muito bem ser uma porta para a sua felicidade que foi interrompida depois da morte do marido. A expressão sofredora, emotiva e intensa da sua cara demonstra na perfeição todos os sentimentos e dúvidas pelos quais aquela mulher está a passar.
Anna acredita que o rapaz é mesmo a reencarnação do seu marido e está disposta a enfrentar qualquer barreira para ir atrás do que pode ser muito bem uma oportunidade de reencontrar o amor ou que pode ser apenas uma miragem da felicidade.

Envolto num clima misterioso e sombrio, “Birth” é um fabuloso exercício sobre a mente humana. Será que sabemos separar a realidade daquilo que pretendemos que seja real? Até que ponto os nossos desejos se sobrepõem ao que é racional?
Nicole Kidman capta na perfeição a alma desta mulher desesperada, interpretando uma das cenas mais bonitas que vi ultimamente no cinema: a cena final do filme, quando Anna deixa sair cá para fora todo o que está a sentir de uma maneira bastante poética e dramática.
Impossível é também ignorar a lindíssima e fascinante banda sonora carregada de tensão.

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sábado, abril 09, 2005

“Perdoar Helena” – Teatro Taborda



Há um encenador que horas antes da estreia cancela o espectáculo e abandona a actividade. Há um actor cuja vida rola sem regresso. Há a migração clandestina detectada dentro dos textos do teatro grego, uma verdadeira infiltração. As Tragédias estão cheias de estrangeiros que chegam de toda as parte: mensageiros, amas, serviçais, transeuntes, jovens guerreiros, campesinos… Há a última viagem dos grous pelos céus do sul. O mundo, o nosso mundo, quando se move parte em busca de quê?

“Perdoar Helena” de José Tolentino Mendonça é uma peça para três actores. Dois homens, um encenador e um actor, e a imagem onírica de Helena de Tróia.
Helena é mesmo o ponto fulcral da conversa dos dois homens. A sua beleza, tantas vezes descrita nos textos clássicos gregos, foi o que desencadeou a Guerra de Tróia. Ao longo da peça podemos ouvir falar de Eurípides, Sófocles, nos textos “As Troianas”, “Antígona”, “Ilíada”, “Rei Édipo”, “Oresteia”, “Medeia” entre outros, todos tendo por base a imagem de Helena, com uma caracterização negativa.

Esta não é uma peça de fácil compreensão. O texto, apesar de ser lindíssimo e com grande musicalidade, não é de todo fácil para o espectador absorver.
A encenação, a cargo do meu antigo professor de teatro Marcos Barbosa, sobressai pela simplicidade: dois bancos, uma mesa, um círculo no qual os dois actores se movimentam. Do lado esquerdo podemos ver Helena, rodeada de vidro e sentada numa mesa de mistura de som e luz. É ela que “comanda” o princípio e o fim de cada cena, a dosagem da música e por vezes paira como que um fantasma por volta dos actores.

Procura-se pensar o significado e os limites da responsabilidade pessoal no destino da cidade; como se articulam culpa do indivíduo e culpabilização social; e, sobretudo, como a procura da justiça nos deixa muitas vezes perante interrogações que não têm apenas uma resposta.

"The assassination of Richard Nixon" (2005), Niels Mueller



O mais ínfimo grão de areia

Inspirado em factos verídicos, “The Assassination of Richard Nixon” é a história de um homem amargurado e despedaçado por um casamento desfeito e um trabalho que não o satisfaz. Num acto de desespero, Samuel Bicke (Sean Penn) planeia matar o presidente Richard Nixon. Numa América dos anos 70, a luta pelo “sonho americano” leva este homem a cometer um acto de loucura apenas para provar como até o ser mais insignificante pode por vezes ter uma grande importância.
Interpretação admirável de Sean Penn que se vem afirmando como um dos melhores actores do momento.

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sábado, abril 02, 2005

“Spanglish” (2005), James L. Brooks



Lost in Translation

A identidade cultural é cada vez mais importante nos dias de hoje pois as barreiras culturais entre os diversos países têm vindo a esbater-se.
Este filme trata essencialmente disso, da nossa própria identidade e da linguagem (linguagem aqui não só no sentido de língua mas de toda uma série de comportamentos) que cada um de nós tem.

Flor Moreno (Paz Vega) é uma mexicana que decide emigrar com a sua filha para a América do Norte, mais precisamente para Los Angeles, à procura de melhores condições de vida. No entanto espera uns anos para realizar tal viagem pois pretende que a sua filha ganhe as raízes culturais da sua terra natal uma vez que acha isso extremamente importante.
Quando decide finalmente partir, Flor é contratada para trabalhar como empregada pela família Clasky (Adam Sandler e Téa Leoni).

Os problemas começam quando duas diferentes culturas e valores entram em colisão.
Numa família em que a esposa é uma neurótica à procura de segurança, o marido um chef bastante conceituado mas descontente com a vida, a filha uma adolescente com falta de auto-estima e a sogra uma alcoólica, Flor sente-se ainda mais um ser estranho e alienado daquele mundo.

O mais interessante deste filme consiste no facto da narração ser feita pela própria filha da protagonista, quando esta escreve uma carta para ser aceite na universidade.
É interessante vermos Flor a integrar-se num universo que lhe é estranho e vermos tudo o que a rodeia pelos seus próprios olhos.
Paz Vega cria maravilhosamente a sua personagem e consegue iluminar com a sua beleza latina qualquer cantinho do filme.

O que falha em "Spanglish" é a sua duração e a exaustão com que certos temas são tratados. Muitas vezes a narração parece que estagna para voltar atrás em explicações intermináveis de assuntos que já foram anteriormente tratados.
É um filme simpático sobre os problemas de expressão que todos nós enfrentamos diariamente não só com pessoas que falam uma língua diferente da nossa. Muitas vezes comunicar com alguém que fale a mesma língua que nós é bastante mais complicado.

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