quarta-feira, junho 29, 2005

“Somersault” (2005), Cate Shortland



Inocência perdida

Fazer um filme que retrata a época conturbada da adolescência é um tema bastante recorrente. Uns optam por fazer uma sátira recheada de meninas e meninos bonitos sem grande interesse a nível de carácter de personagens, festas coloridas e muita parvoíce à mistura. Outros, como Cate Shortland, optam por se centrar nas confusões emocionais dos adolescentes.

Heidi (Abbie Cornish) abandona a casa materna e parte à aventura e à descoberta de si mesma. Sem grandes perspectivas do que fazer, Heidi entrega-se a uma existência solitária. Com o fim de sobreviver, a jovem mantém varias relações sexuais com estranhos para suplantar o seu próprio vazio interior e o desejo de ser amada.

A busca de uma outra casa é a própria busca interior de Heidi, uma viagem que pretende ser de maturação da própria personagem.
Abbie Cornish está fantástica na pele desta rapariga insinuante que não sabe muito bem o que quer. Aliás é a sua interpretação que faz com que o filme tenha resultado tão bem.
“Somersault” é um bom filme e um excelente primeiro trabalho cinematográfico da australiana Cate Shortland.

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domingo, junho 19, 2005

“Mr. & Mrs. Smith” (2005), Doug Liman



What a web of lies!

Jane Smith (Angelina Jolie) e John Smith (Brad Pitt) são um casal há 5 ou 6 anos e estão a passar por uma fase aborrecida no seu casamento. Procuram então um conselheiro matrimonial e é aí que se processam uns flashbacks que nos mostram como os dois se conheceram. É assim que começa o mais popular blockbuster em exibição nas salas portuguesas.
Apesar de ser normal cada pessoa ter os seus próprios segredos, Jane e John escondem um do outro a sua verdadeira ocupação: são ambos assassinos.
No meio de uma teia de mentiras e omissões, os dois vão ter de se enfrentar uma vez que descobrem que para sobreviverem necessitam matar o seu cônjuge.

Com dois dos actores mais cobiçados da sua geração, “Mr. & Mrs. Smith” tem todos os ingredientes para ser um sucesso de bilheteiras: tiros, explosões, grandes perseguições de carro e romance.
E este facto comprovou-se. O filme tornou-se um êxito instantâneo também pelos boatos que surgiram à volta do suposto romance entre os dois actores fora do ecrã.

Angelina Jolie está mais atraente e sexy que nunca e Brad Pitt consegue dar asas à sua faceta mais cómica. O par saiu-se bastante bem e mostrou ter uma química incrível, dando ao filme um ar bastante divertido.
“Mr. & Mrs. Smith” não vai permanecer na nossa memória por muito tempo mas serve para nos “deleitarmos” por um pouco.

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“Sin City” (2005), Robert Rodriguez /Frank Miller



O pecado mora ao lado

Três histórias interligadas que têm como pano de fundo a escura, corrupta e sinistra Sin City.
No centro da acção encontramos Marv (Mickey Rourke) que pretende vingar a morte da sua amada Goldie (Jamie King), Dwight (Clive Owen) que acidentalmente mata um polícia e Hartigan (Bruce Willis) que é injustamente preso por um crime que não cometeu.

Esta adaptação cinematográfica dos livros de banda-desenhada de Frank Miller conseguiu a grande proeza de transpor para o ecrã os ambientes da própria BD.
Inspirado nos filmes noir, “Sin City” é visualmente arrebatador: preto, branco e por vezes toques vermelhos são as únicas cores que compõem as imagens avassaladoras.

No entanto “Sin City” está longe de ser um grande filme.
Apesar do elenco de luxo, nenhum actor me parece dar alguma coisa à sua personagem que, mais que nunca, surgem como autênticos bonecos desprovidos de qualquer conteúdo.
As constantes vozes off também não ajudam em nada e acabam por se tornar bastante irritantes e enjoativas.

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segunda-feira, junho 13, 2005

Concerto The Gift (AM/FM TOUR) - Aula Magna 9 Junho



I´m doing it for music

Seis anos após o primeiro concerto na Aula Magna, os The Gift regressaram para um grande espectáculo. Talvez inspirados pela comemoração desta data, o que é certo é que a banda de Alcobaça conseguiu dar um concerto de duas horas fulgurantes e sem pontos baixos.

Como era de prever, “AM/FM” foi o trabalho mais explorado e aplaudido pelo público. Desde as músicas mais intimistas do lado AM (como a “Are you near”, “1977” e “Wallpaper”) passando ao lado mais agressivo de FM (onde desfilou a linda e mágica “Music”, as mexidas “Driving you slow” e “11.33”, “Cube” e “Red Light”).
Mas o concerto não se restringiu apenas ao material novo da banda. Pela galeria de músicas revisitadas encontramos uma “Question of love” completamente retocada, uma emocionante “Front of”, uma doce "Butterfly" e uma introspectiva "Five Minutes of Everything". Para o fim (e já no segundo encore) ficou reservada a inesperada e magnifica "So Free (3 Acts)".

É também de realçar o trabalho impecável da iluminação e dos jogos de luzes que se compunham e conjugavam de acordo com a música.
Os cubos de cor, apesar de serem objectos extremamente simples, criaram uma atmosfera muito “avant-garde”, de acordo com as próprias directrizes que os The Gift seguem.

Com este concerto os The Gift voltam a comprovar que por cá não só se faz música muito boa como também se fazem espectáculos musicais aliados às novas tecnologias bem ao nível do que acontece no estrangeiro.

“Kung Fu Hustle” (2005), Stephen Chow



Chinesisses

Na Xangai dos anos 40, um jovem aspira pertencer ao prestigiado e bastante conhecido Gang dos Machados, um dos muitos que assombram as ruas da cidade. Ao mesmo tempo, este gang pretende conquistar um dos bairros que é, sem ninguém antes suspeitar, habitado por mestres de Kung-Fu.

Este filme é basicamente uma “cowboiada” no sentido mais inocente e puro do termo. Aqui o que interessa é entreter e nisso “Kung Fu Hustle” sai com missão cumprida. Apesar da história em si ser ligeiramente estapafúrdia, o surrealismo das cenas de luta misturadas com os toques cómicos fazem deste filme um objecto cinematográfico simpático e, acima de tudo, divertido.
As coreografias das lutas são das melhores que já vi desde os tempos de “Kill Bill”: engenhosas, criativas e muito engraçadas.

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terça-feira, junho 07, 2005

“Adriana” (2005), Margarida Gil



Constituir família por métodos naturais

Numa ilha remota um homem decreta que nunca mais os habitantes procriem nem tenham qualquer contacto físico. Anos mais tarde, o homem vê-se forçado a enviar a sua filha Adriana (Ana Moreira) para o continente com o fim de "constituir família por métodos naturais", já que a população da ilha está a envelhecer.
Adriana parte para Lisboa, onde pretende arranjar um homem com o qual possa ter filhos e, assim, assegurar o futuro da sua ilha.

Se o argumento é por si só estranho, o resto não poderia ficar atrás.
“Adriana” pretende ser um “road-movie” que nos mostra a viagem desta rapariga em busca do tal homem, viagem que começa e acaba nos Açores, passando por Lisboa e pelo norte de Portugal.
Os momentos supostamente cómicos não têm esse efeito e apenas a interpretação de Bruno Bravo no papel de um travesti que encarna Amália Rodrigues nos seus espectáculos nos parece real e fidedigna.
Ana Moreira também tem aqui uma boa prestação, fazendo de Adriana uma menina-mulher com toda a doçura e sensualidade daí subjacentes.

Mas este filme tem muitos problemas a meu ver: o seu desenrolar processa-se de forma muito lenta e sem grande interesse; a mensagem que o filme pretende transmitir (se é que há alguma) é imperceptível e, por último, a quase caricatura das várias “tribos” portuguesas tira alguma credibilidade à história.

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